Artigo: 14 de junho - Dia Universal de Deus, a lição do acolhimento

13 de Junho de 2019

"Artigo: 14 de junho - Dia Universal de Deus, a lição do acolhimento"

No dia 14 de junho comemora-se o dia Universal de Deus, uma data para celebrar a fé nas diferenças crenças. A paz entre as nações depende da paz entre as religiões que depende do diálogo entre elas, mas tudo isso depende do acolhimento sadio das diferenças, sem anulá-las. Jesus acolheu as diferenças da samaritana, do centurião romano (cf. Mt 8, 5-13) e de tantos outros. É certo que a história do cristianismo produziu conflitos religiosos sangrentos; um erro que ensinou que discordar das diferenças não é produzir discórdia, mas promover diálogo. A tolerância religiosa se traduz no respeito às diferenças, é uma necessidade humana.

O poeta inglês John Donne diz que ninguém é uma ilha. O ser humano tende para a união e para a verdade. A união requer relações humanas maduras, mas o individualismo golpeia as relações humanas e tolhe o respeito. Por outro lado, tolerar não significa aceitar tudo, isso seria relativismo. A preocupação sobre o limite do que pode ser tolerado se faz presente nas relações humanas sadias, promovidas pelo diálogo, e não dos discursos vazios e sem fundamento.     

Na tolerância religiosa é preciso refletir. O respeito passivo se refere a conviver com o diferente apenas por não poder evitar tal convívio: na família, no trabalho ou na escola. Essa convivência “imposta” abafa o diálogo sobre a religião para evitar conflitos, mas gera relações imaturas, pois tema é ocultado. O respeito ativo, ao contrário, trata da convivência baseada no acolhimento e no diálogo sobre as diferenças usufruindo das riquezas que a diversidade de pensamento proporciona. O apóstolo Pedro mostrou respeito ativo quando dialogou com o oficial romano Cornélio e viu nele uma profunda piedade (cf. At 10, 28-29).

A maioria das famílias reúne diferentes tipos de fé entre seus membros, sendo indispensável promover o respeito, sem ignorar ou menosprezar as diferenças. O respeito ativo promove relações sadias, frutos de atitudes maduras e de amor diante das diferenças do outro. O apóstolo Paulo lembra que o amor é tolerante (1Cor 13, 4), assim o respeito ativo às diferenças mostra caridade, um ensinamento do Evangelho. A opção religiosa diferente não gera discórdia, mas o diálogo e traz riquezas a serem apreciadas por todos.

Tolerância na comunidade

O artigo 5° da Constituição Federal brasileira, que trata dos Direitos e das Garantias Fundamentais à crença religiosa, no termo VI, diz que a liberdade de crença é inviolável. O termo VIII prescreve que ninguém seja privado de seus direitos por motivo de crença religiosa em todas as esferas, inclusive no trabalho. Em 2017, numa reunião com empresários, o Papa Francisco destacou que toda empresa existe para servir o ser humano, não para excluí-lo ou discriminá-lo. Acolher, respeitar e preservar o espaço de crença do outro é fundamental.

Na escola também convergem diferentes universos culturais. Ofensas a credos e crianças isoladas por colegas ou professores em razão de sua fé são um problema grave que parece  invisível para a sociedade. A escola deve suscitar cidadãos respeitosos, capazes de conviver com o diferente, sem ameaças e sem promover discórdia. O professor tem sua própria opção religiosa, mas seu papel não é impor sua crença, e sim auxiliar os estudantes sobre a convivência madura com os colegas. Os professores não podem resolver todos os problemas e nem dar todas as respostas aos estudantes, mas precisam abrir um diálogo respeitoso sobre esse tema para que todos compreenderem melhor as riquezas que vêm das diferenças religiosas.

O assunto religião é de interesse de toda a comunidade e está presente nas famílias, na escola, no trabalho e na sociedade em geral. Por isso, o desrespeito religioso pode nutrir uma cadeia de conflitos e tirar a paz de todos. O conceito de Deus não se refere à guerra, mas sim à paz. O ser humano deve buscar a maturidade nas relações, então pode coexistir com um diálogo respeitoso e ativo aberto entre as religiões. O caminho da tolerância é acolher as diferenças e promover relações saudáveis, preservando vidas.


O autor

Padre Gelson Luiz Mikuszka é licenciado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1996), mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2011) e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (2016). É professor do curso de Teologia da PUCPR Câmpus Londrina. Atua na área de teologia pastoral.