Depois de quarenta dias da Quaresma, iniciamos a Semana da Cruz. A cruz não é a conclusão da Quaresma. A cruz aponta o infinito, o amor de Deus. As semanas penitenciais nos mobilizaram para a conversão do coração.
A entrada solene de Jesus em Jerusalém é enganosa por um lado e esperançosa por outro. É enganosa porque a multidão que aplaude, dias depois, condena. A intensidade da inconstância toma conta das massas, porque massa não pensa, não tem critério nem juízo. Nos dias atuais, as mesmas atitudes se repetem quando se fala em política. As pessoas não pensam, vão na onda de interesseiros, mentirosos, enquanto pessoas idôneas nem sempre conseguem se eleger. Por outro lado, a pequena parcela que caminha ao lado do Servo sofredor caminha com angústia e alcança a vitória final: Ele ressuscitou, está vivo no meio de nós.
O profeta Isaías (Is 50,4-7) descreve com detalhes o caminho crucial do Messias, que passa pela humilhação total, morte de cruz e anuncia novos tempos. O Servo não recua diante do sofrimento, pois sabe que o Senhor está com ele. A consciência da presença do Senhor supera toda espécie de sofrimento e calúnia. Jesus foi obediente ao Pai, na extrema angústia na cruz.
Entendamos a carta aos Filipenses (2,6-11): “Cristo, sendo Deus, esvaziou-se de sua glória. Fez-se servo, assumiu nossa condição e obedeceu até a morte de cruz. A cruz não é o fim, mas o caminho da vitória e da exaltação”. O Evangelho da Paixão segundo Mateus (27,11-54), narra com sobriedade e profundidade os últimos momentos da vida de Jesus. Sua dignidade diante das falsas acusações, o silêncio que revela autoridade, a entrega livre ao sofrimento, o perdão aos algozes, a fidelidade até o último suspiro. A cruz, que parecia sinal de fracasso, revela-se como manifestação suprema do amor e da glória divina (Igreja em Oração).
A mobilização das multidões, Sinédrio, governo, revelou o maior equívoco na decisão de condenar alguém que nunca fugiu, não semeou ódio, divisão, sempre esteve ao lado da vida, da dignidade, da não violência. Ele passou no meio de nós semeando o bem e sofreu tudo calado para nos salvar. Contemplemos sua aceitação à vontade de Seu Pai e nosso. Jesus teve medo do sofrimento, como todos nós temos, pois Ele era humano, foi totalmente obediente e confiante na vontade de Deus. (Diário Bíblico).
A Sua ação misteriosa, silenciosa, obediente, revela o amor pela vida das pessoas. Ele veio para salvar a todos. O Pai tem o Reino dos Céus para todas as pessoas que fazem o bem. A salvação vem após a superação da maldade humana, que tira a dignidade de milhões de pessoas do direito de ter casa, comida, segurança, bem-estar. O mundo é o lugar onde devemos construir as relações que apontam o destino final, que não é a cruz, a morte, mas a ressurreição.
Ao iniciar a Semana Santa, com um gesto nobre, nos silenciamos diante da corajosa decisão de Jesus em seguir o caminho do Calvário, enfrentar a dor e a morte, mas confia no Pai, que sustenta a vida para todo o sempre. Também faremos a nossa oferta para aliviar a dor, os sofrimentos de tantas pessoas que buscam melhorias, dignidade, oportunidade de ter uma casa digna para morar e viver como filhos de Deus. Sejamos generosos na contribuição da oferta da Campanha da Fraternidade, “Fraternidade e Moradia”, lema: “Ele fez morada entre nós” (Jo 1,14).
Que participemos com esperança de todas as celebrações do Tríduo Pascal para sermos merecedores de uma Páscoa feliz.
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Publicado no Jornal O Maringá, 29.03.2026




