20 de Setembro de 2026

"Os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos"

A Palavra de Deus nos conduz a um caminho de profunda conversão. O profeta Isaías nos apresenta a grandeza do pensamento divino: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Is 55,8-9). 

Estas palavras não diminuem a inteligência humana; ao contrário, recordam-nos que Deus é infinitamente maior que nossos limites. O Senhor vê o que nós não vemos, conhece o que ignoramos e conduz a história segundo o Seu amor misericordioso. A verdadeira oração não procura mudar Deus; procura transformar o nosso coração para que ele se torne semelhante ao coração do próprio Cristo. 

São Paulo, escrevendo aos filipenses, convida a comunidade cristã a viver esta profunda transformação interior: “Vivei de modo digno do Evangelho de Cristo” (Fl 1,27a). A vida cristã não pode limitar-se a práticas religiosas exteriores. É necessário adquirir os sentimentos de Cristo, olhar a realidade com os Seus olhos, amar com o Seu coração, servir com a Sua humildade e confiar com a Sua obediência ao Pai. 

Essa mudança de mentalidade aparece de maneira admirável na parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16a). Humanamente, é fácil identificar-se com aqueles que trabalharam desde cedo e se sentiram injustiçados ao receberem o mesmo salário dos que chegaram na última hora. Nossa lógica calcula, compara, mede méritos e recompensas. Deus, porém, não é prisioneiro da matemática humana. 

Jesus não está ensinando que o trabalho não possui valor, nem que a justiça deva ser ignorada. O Senhor revela que o Reino de Deus é sustentado pela graça e pela misericórdia. O proprietário da vinha não pratica nenhuma injustiça. Cumpre exatamente o que havia combinado com os primeiros trabalhadores. O problema não está no salário recebido, mas no coração que compara, inveja, mede e se fecha diante da bondade de Deus. 

O Evangelho nos recorda que Deus permanece soberanamente livre para amar. Sua misericórdia ultrapassa nossos esquemas e surpreende continuamente aqueles que desejam aprisioná-la em critérios exclusivamente humanos. 

O Senhor não envia o sofrimento, nem deseja a injustiça ou o mal. A dor, as divisões, as violências e as tragédias não podem ser atribuídas à vontade divina. Deus é sempre fonte de vida, de misericórdia e de esperança. 

Por isso, jamais é tarde para acolher a misericórdia divina. Jesus nos mostra que a conversão pode acontecer em qualquer momento da existência. O exemplo mais comovente é o do bom ladrão. Já crucificado ao lado de Cristo, reconheceu seus pecados, voltou-se humildemente para Jesus e ouviu a promessa que atravessa os séculos: “Hoje estarás comigo no Paraíso.” A misericórdia de Deus permanece aberta até o último instante da vida para quem acolhe sinceramente o Seu amor. 

O Papa Leão XIV tem insistido em que a verdadeira evangelização nasce da conversão do coração e da fidelidade ao Evangelho. A Igreja é chamada a ser simples, pobre em espírito e inteiramente configurada a Jesus Cristo. Não anuncia a si mesma, mas anuncia o Senhor. Não busca privilégios, mas o serviço. Não alimenta divisões, mas promove a comunhão. Não manipula a verdade para atender interesses humanos, mas permanece fiel à verdade libertadora do Evangelho. 

A Mãe de Jesus nunca pretendeu conduzir o Filho segundo seus próprios interesses. Pelo contrário, acolheu humildemente os desígnios do Pai, mesmo quando ultrapassavam sua compreensão. Em Caná, pronunciou aquelas palavras que permanecem como o programa de toda a vida cristã: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” 


Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM 

Publicado no Jornal O Maringá, 20.09.2026