Neste domingo, a Palavra de Deus nos recorda que somente o Senhor é o dono da história e da vida humana. Nenhum poder terreno — político, econômico ou social — pode ocupar o lugar que pertence a Deus. Contudo, a fé não nos afasta do mundo; ao contrário, impele-nos a construir uma sociedade marcada pela dignidade, liberdade, justiça e paz.
O profeta Isaías (45,1-6) fala ao povo no exílio da Babilônia, em meio ao sofrimento e à perda da esperança. É nesse contexto que anuncia: Deus continua conduzindo a história. Ele pode servir-se até de instrumentos inesperados, como Ciro, rei da Pérsia, para realizar sua obra de libertação. Assim, aprendemos que Deus age na história e suscita pessoas para promover a vida e a liberdade. Ele não quer opressão, violência ou injustiça, pois cada ser humano é criado à Sua imagem e possui dignidade inviolável.
No Evangelho de Mateus (22,15-21), Jesus é confrontado com uma armadilha: “É lícito pagar imposto a César?”. Sua resposta supera a provocação. Após pedir a moeda e perguntar de quem é a imagem, declara: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Jesus não iguala Deus e o poder político, mas estabelece uma distinção essencial. As autoridades têm seu papel, porém Deus permanece Senhor absoluto da vida e da história. A consciência, a liberdade e a dignidade humana pertencem a Ele.
Dar a Deus o que é de Deus significa reconhecer que nossa vida, nossa liberdade e nossa consciência são d’Ele. Significa não absolutizar dinheiro, poder, ideologias ou instituições, e colocar sempre a pessoa humana e o bem comum em primeiro lugar.
A fé se opõe a tudo o que escraviza, exclui ou destrói a vida. Por isso, somos chamados a discernir e enfrentar, com responsabilidade, as realidades que clamam por transformação: pobreza, fome, violência, corrupção, desigualdade, exploração, abandono dos vulneráveis e destruição da criação.
A Primeira Carta aos Tessalonicenses (1,1-5) mostra uma comunidade viva na fé, na caridade e na esperança. Ser Igreja é caminhar unido em torno do Evangelho, não em busca de poder, mas como testemunhas do Reino de Deus no mundo.
Neste Mês Missionário, recordamos que toda a Igreja é missionária. A missão começa no cotidiano: na família, no trabalho, na comunidade e na vida social. Como cristãos e cidadãos, somos chamados à responsabilidade: viver com honestidade, cumprir nossos deveres, contribuir com o bem comum, participar da vida social e política e colaborar para a justiça e o desenvolvimento da nação.
O pagamento dos impostos, que contribui para o bem coletivo, deve ser acompanhado da exigência de transparência e boa gestão. Dar a César o que é de César não é absolutizar o poder humano, mas cumprir os deveres civis sem esquecer que tudo deve estar a serviço da pessoa e do bem comum.
O dízimo, por sua vez, expressa nossa corresponsabilidade na missão da Igreja, sustentando a evangelização e fortalecendo as comunidades.
Reconheçamos que somente Deus é Senhor da história. Sejamos cristãos comprometidos, cidadãos responsáveis e missionários corajosos. Nossa fé deve se traduzir em ações concretas de justiça, solidariedade e serviço.
Não basta conhecer o Evangelho: é preciso vivê-lo. Que assumamos, com coragem e perseverança, o compromisso de transformar o mundo com gestos de amor e justiça.
Que Maria, Mãe da Igreja, nos acompanhe para que cada pessoa seja respeitada em sua dignidade de imagem de Deus. E que, como povo de Deus, saibamos colaborar com generosidade na missão evangelizadora, hoje e sempre, sob a bênção do Senhor.
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Publicado no Jornal O Maringá, 18.10.2026




