“Mesmo não florescendo a figueira e não havendo uvas nas videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas e não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral, nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação” (Hab 3,17-18).
Na Liturgia desta quarta-feira da IX Semana do Tempo Comum, vemos, na 1ª Leitura (2Tm 1,1-3.6-12), que o Apóstolo Paulo, perseguido, preso, condenado e prestes a enfrentar o martírio, cheio do poder de Deus, com convicção, estimula seu companheiro, Timóteo, convidando-o a reavivar o dom que este recebeu em seu ministério, que consiste, fundamentalmente, em testemunhar o Evangelho. Este testemunho pode levar ao mesmo destino de Jesus: ao sofrimento, à rejeição e à morte.
Paulo exorta Timóteo a manter a plena fidelidade ao Senhor, convida-o a testemunhar a fé em todos os lugares e culturas. Paulo compreende que o discípulo de Jesus, em qualquer tempo e lugar, deve reescrever o Evangelho com a sua própria vida. Neste texto, ele faz um insistente convite à nossa renovação espiritual: “Reaviva o dom de Deus que há em ti”. Reavivamos a vida de Deus em nós quando nos colocamos à escuta do Senhor que nos fala pela vida (realidade) e pela Palavra (Bíblia). Mais necessário será testemunhar nossa fé perante as adversidades, perplexidades e angústias do tempo presente, pela superficialidade da cultura urbana e pela insegurança diante de grandes desafios. Vivemos diante de uma lacuna que coloca em xeque nossa vocação e o próprio Projeto de Deus. A cada dia aumentam os problemas sociais e, cada vez mais, aumentam os sinais das contradições de nosso tempo, em que a miséria e opulência convivem sob a angústia de uns e a indiferença de outros, em que é preciso investir na força criadora da evangelização inculturada, por meio do serviço e do diálogo, do anúncio e do testemunho de comunhão. O Espírito Santo, contudo, não nos deixa acomodados e nos impele a repetir, como em um canto novo, a experiência do profeta: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Seduzidos pelo Senhor, devemos ser mistagogos (mestres nos mistérios), levando muitas pessoas à mesma experiência do amor de Deus.
No Evangelho (Mc 12,18-27), Jesus desmoraliza os saduceus, apresentando o cerne das escrituras: Deus é o Deus comprometido com a vida. Ele não criou ninguém para a morte, mas para a aliança consigo para sempre. A vida da ressurreição não pode ser imaginada como cópia do modo de vida deste mundo, não é um prolongamento daqui, mas realização plena. Os saduceus pertenciam ao grupo que detinham o poder econômico, político e religioso, exploravam o povo e foram os responsáveis pelo processo que levou Jesus a morte. Por serem religiosos, ridicularizar Jesus e agir contra os seus ensinamentos, muitas vezes, confundiam o povo. Se importavam somente com este mundo, que eles tentavam controlar, não suportavam a ideia de ressurreição, muito menos a esperança que ela produz de um mundo transformado, no qual homens e mulheres não se relacionem em termos de propriedade e dominação deles sobre elas.
A fé na ressurreição é compromisso com a vida, não é crença intelectual, discussões teóricas sem sentido. Ressurreição é dar sentido para vida, ser capaz de renúncias, sacrifícios e gestos heroicos por uma causa: a causa do reino de Deus. Jesus afirma que o Deus cujo reino ele proclama é radicalmente comprometido com a vida digna para mulheres e homens, em todas as situações, principalmente onde não há esperança, isto é, em muitas realidades de ‘mortos vivos’.
Crer na vida eterna faz-nos abrir-nos para as necessidades dos outros, vencer o egoísmo e lutar para transformar as estruturas injustas deste mundo: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,2).
Boa reflexão e que possamos produzir muitos frutos para o Reino de Deus.
Pe. Leomar Antonio Montagna
Presbítero da Arquidiocese de Maringá – PR
Pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças, Sarandi – PR




